segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

105) Ligeiro bosquejo sobre a vida e obra do filósofo e cientista Ernesto Bozzano

Ernesto Bozzano
     
     Foi no ano de 1891 (diz Ernesto Bozzano) -- data para mim memorável -- que pela primeira vez me pus em contato com as pesquisas psíquicas e isso se deu por obra do professor Ribot, diretor da "Revue Philosophique", o qual espontaneamente me enviou o primeiro número dos "Anais das Ciências Psíquicas", em que se falava de telepatia (obs. minha: como frisei no artigo anterior, "telepatia" foi a palavra cunhada por Frederic Myers para designar o fenômeno em que uma pessoa prestes a morrer, ao pensar num parente ou amigo distante, transmite a este, por meio de ondas cerebrais, a sua imagem -- pelo menos esta foi a primeira interpretação que Myers deu ao fenômeno). Esta "fortuita coincidência", continua Bozzano, decidiu para sempre do meu futuro de escritor e pensador. Uma vocação predominante me havia, ao invés, conduzido a ocupar-me, exclusiva e apaixonadamente, de filosofia da ciência e Herbert Spencer era, naquele tempo, o meu ídolo. (...) Não obstante, a síntese conclusiva das minhas concepções filosóficas gravitava decisivamente na órbita dos pensadores materialistas, que negavam a existência de um Ente Supremo e a sobrevivência humana. Nessa conformidade, defendia eu, nas revistas filosóficas, esse ponto de vista com apaixonado ardor, correspondente, em tudo, ao que mais tarde viria a demonstrar em defesa de uma causa diametralmente oposta, porém infinitamente mais reconfortante.     
     
     Charles Richet (1850 - 1935) e Ernesto Bozzano (1862 - 1943) mutuaram-se influências e estímulos durante mais de 40 anos. O filósofo italiano contaria mais tarde que foi através do primeiro número dos "Anais das Ciências Psíquicas", da qual Richet era o orientador e Darieux o diretor (e que lhe foi enviado pelo prof. Ribot), que travou conhecimento com a fenomenologia paranormal. Leu os artigos iniciais dos "Anais" e leu a resposta do professor Rosembach na "Revue Philosophique", clamando contra a intrusão sacrílega desse novo misticismo na Psicologia oficial, procurando explicar os novos fatos pelas hipóteses da alucinação e das coincidências casuais. No número seguinte dos "Anais", um artigo do professor Richet, baseado em fatos comprovados, refutava, ponto por ponto, os argumentos de Rosembach. Foram justamente os argumentos fragílimos e insubsistentes de Rosembach que começaram a despertar em Bozzano o interesse pelo assunto, tendendo a levá-lo à opinião contrária a do opositor de Richet. Mas ainda era muito cedo para isto. No entanto, diria mais tarde Bozzano em sua "Autobiografia", mesmo sem dar por tal, eu já havia dado o primeiro passo no caminho da "estrada de Damasco".     
     Mas o que abalou seriamente o seu critério positivista-materialista foi a leitura da grande obra "Animismo e Espiritismo", do poliglota, conselheiro de estado russo e professor da Academia Alemã de Leipzig, Alexandre Aksakof. (...)     
     Depois do estudo das principais obras e de nove anos de experimentos (de que falaremos adiante), desfêz-se-lhe a síntese filosófica materialista, laboriosamente adquirida através dos livros e trabalhos de Büchner, Moleschott, Vogt, Feuerbarch, Tanzi, Sergi, Ardigo, Haeckel, Huxley, Comte, Taine, Guyau, Le Dantec, Morselli e do seu ídolo maior -- Herbert Spencer.       
     Pode-se dizer que Richet foi o iniciador de Bozzano nos estudos parapsíquicos. Enfrentaram-se mais tarde, várias vezes, em polêmicas serenas e elevadas -- Richet, materialista, versus Bozzano, espiritualista. E foi Bozzano quem colheu a confissão final e confidencial de Richet, poucos meses antes de sua morte (confissão que é mostrada no artigo 43 deste blog).     
     
     Continuando a exposição, Bozzano começa a ler os livros e revistas especializados que versam sobre o assunto, publicados em todos os principais centros do mundo. Da leitura, seleciona todos os casos interessantes, escrupulosamente verificados, classifica todos os fatos, dividindo-os em categorias, grupos, subgrupos, e mantém cuidadosamente em dia um quadro geral das matérias. Leu as obras de Allan Kardec, de Gabriel Delanne, Léon Denis, Eugênio Nus, Alfredo Erny, Paul Gibier, William Crookes, Alfred Russel Wallace, Edmond Gurney, Frederic Myers, Adolphe D'Assier, Karl du Prel, Alexandre Aksakof, etc., e adquire as principais obras inglesas e norteamericanas publicadas desde a origem do "movimento de Hydesville" (Dale Owen, Epes Sargent, Sra. De Morgan, Dr. Wolfe, Sra. Emma Hardinge-Britten, William Howitt). E vai catalogando os fatos, por meio de um classificador alfabético, método precioso e prático que empregará durante a sua gloriosa vida de pesquisador exemplar. Adquire, assim, uma cultura psíquica sólida e só depois considera que chegou o momento de por frente a frente os seus conhecimentos teóricos com as pesquisas experimentais, para comprovar se estas confirmam ou não aqueles.      
     Com alguns amigos de Gênova funda uma sociedade de estudos psíquicos: o "Círculo Científico Minerva", onde realiza experimentos psíquicos desde o ano de 1892 até 1906. O "Círculo" vive, especialmente, oito anos magníficos, durante os quais obtém as mais genuínas provas experimentais sobre a fenomenologia anímica e espirítica, inclusive materializações de Espíritos.     
     Quando, em 1901, decidiu entrar na liça, seu primeiro trabalho foi divulgado pela "Revista de Estudos Psíquicos", de Paris, cujo título atraía a atenção dos metapsiquistas e dos espíritas -- "O Animismo Prova o Espiritismo". Coincidência ou não, o fato é que daí em diante -- diz Bozzano -- não mais pude deixar de eviscerar, sob todos os aspectos, essa questão, que é fundamental para a correta interpretação da fenomenologia metapsíquica e cuja solução, em sentido espirítico, se apresenta como a única apta a explicar o conjunto inteiro dos fenômenos paranormais.     
     Como todo pesquisador de um ramo da ciência, Bozzano sempre empregou o método de análise comparada e fê-lo seguir de uma síntese. Daí então ele nos apresenta um acervo de 1.200 classificações de fatos extra-sensoriais pelas vias do Animismo e do Espiritismo, rigorosamente selecionados, controlados e verificados. Jamais ousou emitir conclusões de natureza geral relativamente à origem provável de qualquer categoria de fatos psíquicos, sem primeiro ter passado em revista, analisado e comparado todos os fatos daquela categoria, e todas as hipóteses formuladas para explicá-los, quer as de ordem materialista (fraudes, sugestões, autossugestões, alucinações, coincidências fortuitas), quer as de ordem anímica (memória integral, telepatia, clarividência), quer as de ordem espirítica.     
     Graças a este método que o conduzirá à convergência das provas, critério adotado em toda a sua investigação científica, graças a esta prodigiosa massa de fatos inteligentemente reunidos, Bozzano pronuncia-se com autoridade. Rebate as hipóteses dos seus contraditores em todos os domínios do pensamento: filosófico, científico, teológico. A sua lógica cerrada e o seu raciocínio preciso tornaram-no temível lutador. Sob o fogo dos seus argumentos lógicos, os adversários emudecem.     
     Cria renome cada vez maior: depressa é considerado "o grande mestre da ciência da alma". Mais de duzentas cartas por mês, provenientes de pesquisadores e curiosos de todas as partes do mundo, vêm interromper-lhe as meditações e o trabalho perseverante, executado em reclusão quase completa. A parte essencial da sua obra consiste na publicação ininterrupta de monografias poderosas, profundas (mais de cem, segundo os que as contaram), das quais só algumas foram traduzidas em francês, inglês e português. Nelas reúne os fatos mais importantes de cada categoria de fenômenos paranormais, e não elimina "a priori" qualquer hipótese, por que só tem um objetivo: através da Verdade chegar à Verdade, como ele próprio dizia. Não emprega frases impressionantes e vazias de sentido. Analisa, compara e demonstra com base exclusivamente nos fatos. Fatos, sempre fatos...        
     Para finalizar, demos a palavra ao filósofo e cientista italiano:      
     
     Na minha qualidade de defensor da teoria espírita, tomei a meu encargo submeter aos "animistas totalitários" o primeiro ensaio do material paranormal em discussão.        
     Não duvido que completarei assim um trabalho eminentemente científico e, sobretudo, literalmente decisivo relativamente à controvérsia que nos divide, e que pode se desenrolar de forma cortês de um lado como de outro. Estou preparado para esta discussão por 43 anos de estudo metódico, severo, sistemático, de natureza nitidamente científica, e sobretudo imparcial, pois, durante a mocidade, militei nos ramos do positivismo materialista, escrevendo artigos apaixonados nas Revistas filosóficas para sustentar convicções dessa época.     
     Então, nada de misticismo nas minhas convicções atuais: não é senão a lógica irresistível dos fatos que realizou a grande transformação, lógica fundada na análise comparada de um acervo imponente de 1.200 classificações de fatos, nos quais se acham registrados todos os importantes fenômenos paranormais verificados experimentalmente, ou que se produziram espontaneamente depois do movimento espiritualista até os nossos dias, assim como todas as teorias, todas as hipóteses que se têm imaginado até aqui para explicar os fatos; todas as argumentações excelentes, boas, medíocres, sofísticas, absurdas que se têm formulado a respeito.      Com este aparato formidável para a ofensiva e para a defensiva, não temo quem quer que seja, e me considero seguro para para demolir, aniquilar, pulverizar todas as hipóteses, todas as objeções, todos os sofismas da dialética contrária. E digo "dialética", porque não se pode tratar de fatos: os fatos estão ao meu lado, e a este respeito eu sei o que digo; ninguém pode saber melhor do que eu porque, sem nenhuma vaidade, nenhuma pessoa fêz o que eu fiz.      
     
     Os textos citados acima eu os respiguei dos seguintes livros: "Animismo ou Espiritismo?", e "Autobiografia" (do próprio Bozzano), "Silva Mello e os Seus Mistérios" (de Sérgio Valle), e "Os Simples e os Sábios" (de Pedro Granja).
     
     Vejamos, entre as centenas de trabalhos escritos pelo pensador italiano, aqueles já traduzidos para a nossa língua, até o momento presente, se o meu modesto conhecimento não me leva a omissões:

-- Cinco Excepcionais Casos de Identificação de Espíritos
-- A Propósito da Obra "Psicologia e Espiritismo", do Prof. Enrico Morselli
-- Fenômenos Premonitórios
-- Fenômenos de Assombramento (*)
-- Enigmas da Psicometria  
-- Fenômenos de Telestesia
-- Fenômenos Psíquicos no Momento da Morte
-- A Alma nos Animais
-- Comunicações Mediúnicas Entre Vivos 
-- Povos Primitivos e Manifestações Paranormais
-- Notáveis Intuições Filosóficas e Científicas entre os Selvagens Africanos
-- A Propósito da Introdução à Metapsíquica Humana
-- Pensamento e Vontade
-- A Crise da Morte
-- Literatura de Além-Túmulo
-- Fenômenos de Transporte
-- Xenoglossia
-- Fenômenos de Bilocação
-- Breve História dos "Raps"
-- Marcas e Impressões Paranormais de Mãos de Fogo
-- Fenômenos de Transfiguração
-- Materializações de Espíritos em Proporções Minúsculas
-- Remontando às Origens
-- Visão Panorâmica ou Memória Sintética na Iminência da Morte
-- Telepatia, Telemnésia e a lei da Relação Psíquica
-- Experiências Espíritas de um Ministro da Igreja Anglicana
-- Cérebro e Pensamento
-- Gemas, Amuletos e Talismãs
-- Animismo ou Espiritismo? Qual Deles Explica os Fatos?

(*) Obra traduzida pelo "site"  http://www.autoresespiritasclassicos.com
     Nesse site, há duas outras obras de Bozzano em vias de tradução:
     "Guerra e Profecia" e "Os Mortos Retornam".
     
     Para finalizar, faço minhas as palavras do grande filósofo e cientista italiano, refutando o psiquista francês, materialista, René Sudre, na sua obra "A Propósito da Introdução à Metapsíquica Humana":
    
     "Se outra é a opinião de Sudre
(e de seus adeptos materialistas - obs. minha) a tal respeito, é que certamente dispõe de elementos que a justifiquem e então fácil lhe será achar uma explicação natural para todos os casos de que tratam alguns dos meus trabalhos, competindo-lhe refutar, uns após outros, todos os argumentos por mim apresentados em favor da sua gênese indiscutivelmente espírita. Uma explicação natural, repito, para a todos os casos de que tratam alguns dos meus trabalhos, e não para dois ou três casos, escolhidos a dedo, e que se prestem a "exercitações" sofísticas. Espero que os meus contraditores não emudeçam, mas que venham contestar-me no terreno dos fatos, pois sinto-me em condições para responder em todas as circunstâncias, graças, é certo, não ao meu mérito, mas à qualidade da causa que defendo.


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

104) Como surgiu a palavra "telepatia" e quem foi o seu criador?

Charles Richet
     
Frederic Myers

Camille Flammarion
     












     O vocábulo "telepatia" significa, é certo, transmissão de pensamentos. Contudo, talvez poucas pessoas saibam que é muito mais frequente a ocorrência de fenômenos telepáticos sob a forma de transmissão ou projeção de imagens do que sob a forma de transmissão de palavras ou frases.     
     Demos a palavra ao professor, médico e fisiologista francês (Prêmio Nobel de Medicina) Charles Richet, fundador da Metapsíquica, em sua conferência de despedida na Cátedra da Sorbonne, por ter atingido o limite de idade. 
     Diz ele: (farei alguns adendos para esclarecer melhor a exposição do mestre).     

     "Pode-se resumir toda a Metapsíquica subjetiva em uma proposição muito simples que não é, de todo, uma teoria. É unicamente a exposição de um fato que me parece evidente e que formularei assim: há, para o conhecimento da realidade, outras vias além das vias sensoriais comuns. Por outras palavras, a inteligência pode conhecer um fragmento da realidade quando nem a vista normal, nem o ouvido, nem o tato, puderam revelar-lhe".     
     "Para chegar a essa verificação existem as observações e os experimentos. Falarei, primeiro, das observações".     
     "Elas são inumeráveis. Foram recolhidas, com cuidado extremo, por meus sábios amigos da Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Londres, Gurney, Myers e Podmore, que publicaram um belo livro em 1886 -- Phantasmas of the Living -- com 770 páginas e 702 casos. Trata-se, as mais das vezes, do que se pode chamar uma alucinação verídica, porque há concordância entre ela e um acontecimento exterior que nada faria prever".     
      "Em quantos casos bem autenticados indivíduos viram aparecer a imagem de outra pessoa, amiga ou parente, que, nesse exato instante, falecia ! Não podendo apresentar, nesta sucinta exposição, mais que um miserável resumo, citarei apenas dois fatos".     

     "Smith, empregado bancário em Londres, entra em casa e, depois do jantar, conversa tranquilamente com sua esposa. De repente, pergunta: -- Que horas são? -- Oito e quarenta e cinco -- É, pois, à 8 e 45 que Fred morre; acabo de vê-lo. Com efeito, nesse momento preciso morria Fred, que não estava doente".     

     "O Sr. Wingfield, na Índia, achava-se acordado num iate, quando vê aparecer, na cabine, o irmão, pálido e triste. Espantado, vai para outra cabine e escreve em seu caderno de notas as iniciais do irmão, com estas palavras: God forbid (Deus nos livre). Ele anota a data e a hora da aparição. À mesma hora e no mesmo dia, na Inglaterra, morria seu irmão, William Baker, por motivo da queda de um cavalo".     

     "Paro aqui: poderia citar mais de cem casos análogos, igualmente probantes. Nem o erro, nem a fraude, nem o acaso, bastariam para explicá-los".     
     "Frederic Myers deu a essas alucinações verídicas, isto é, tendo alguma relação com a realidade, e verificadas em condições irrepreensíveis, o nome de telepatia. Ele supôs que as vibrações cerebrais do indivíduo A, geralmente prestes a morrer, se propagam por ondas esféricas circulares, e são captadas pelo cérebro do indivíduo B, ligado a A por laços de parentesco ou amizade, sob a forma de uma imagem de A (A seria o agente e B o percipiente). Na Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Londres adotou-se rapidamente essa opinião, e a teoria da telepatia presto se vulgarizou".

Obs. minha: "O pensamento produtor de imagens", é como o astrônomo Camille Flammarion designou os fenômenos acima, também conhecidos como aparições telepáticas de moribundos, porque na maior parte dos casos (embora não em todos) são moribundos os responsáveis pelos fenômenos. Os fenômenos de transmissão telepática de imagens, como disse antes, são muito mais frequentes do que os de transmissão de palavras ou frases. Recomendo o livro "O Desconhecido e os Fenômenos Psíquicos" (ed. FEB, 555 páginas), do astrônomo francês, onde esses e outros fenômenos (visão à distância sem o auxílio dos olhos, e previsão do futuro) são citados às centenas. Pode-se consultar também, do mesmo autor, "A Morte e o Seu Mistério", em 3 volumes ("Antes da morte", "À Volta da Morte", e "Depois da Morte").

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

103) Os experimentos psíquicos do astrofísico alemão Friedrich Zöllner

Friedrich Zöllner

     Johann Karl Friedrich Zöllner, ou apenas Friedrich Zöllner, como era mais conhecido, foi um famoso astrofísico alemão e professor da Universidade de Leipzig, Alemanha. Foi também membro da Sociedade Real de Ciências da Inglaterra, membro correspondente da Real Sociedade Astronômica de Londres, da Imperial Academia de Ciências Físicas e Naturais de Moscou, membro honorário da Associação de Ciências Físicas de Frankfurt em Main, da Sociedade Científica de Estudos Psíquicos em Paris, e da Associação Britânica de Espiritualistas de Londres. Nasceu em Berlim, a 08 de novembro de 1834 e faleceu precocemente em Leipzig, Alemanha, a 25 de abril de 1882, aos 48 anos de idade, em virtude do súbito rompimento de um aneurisma cerebral. Deixou inúmeros trabalhos na área da astronomia e da ótica física, onde ficou bastante conhecido por suas pesquisas na área da ilusão de ótica. Seu trabalho em ótica, desenvolvido em 1860, foi denominado Ilusão de Zöllner, em que linhas paralelas se mostravam como diagonais. Na área da astronomia ele se destacou provando a teoria de Christian Doppler sobre o efeito do movimento na cor das irradiações eletromagnéticas das estrelas em consequência do desvio das linhas do espectro da luz emitida por estes corpos celestes. Ele inventou um aparelho muito sensível chamado Astrophotometer, capaz de medir essas variações. Em sua homenagem, uma das crateras da lua foi denominada Cratera de Zöllner. Em 1872, foi convidado a ocupar a cátedra de Astrofísica na Universidade de Leipzig. Em Astrofísica, seus principais trabalhos foram "A Natureza dos Cometas", "Esboço de Fotometria Universal dos Céus Estrelados", "Natureza dos Corpos Celestes".
     Zöllner estudou cuidadosamente os fenômenos psíquicos através do médium norteamericano Henry Slade, desenvolvendo uma série de experimentos em sua própria casa, juntamente com outros cientistas (Weber, Fechner, Scheibner, Erdmann, Thiersch, etc.). É preciso ler o seu livro "Física Transcendental" (no original alemão), ou, na tradução brasileira, "Provas Científicas da Sobrevivência" (Edicel, 1966) para se ter uma ideia dos fenômenos observados. Farei um breve apanhado: escrita entre duas lousas hermeticamente lacradas (escrita direta), impressões permanentes de mãos e pés, nós em uma corda cujas pontas foram lacradas juntas, materialização de mãos, desaparecimento e posterior reaparecimento de objetos, moedas transportadas de caixas hermeticamente fechadas, diversos exemplos de fenômenos da chamada "passagem da matéria através da matéria", etc.. Para explicar tais fatos, Zöllner postulou a existência de uma quarta dimensão do espaço (completamente inconcebível para os nossos cérebros tridimensionais), e de seres espirituais vivendo nessa quarta dimensão espacial, seres esses que seriam os causadores dos fenômenos observados, todos eles obtidos sem nenhuma escuridade.     

     Eis o que, a este respeito, nos diz o sábio criminologista César Lombroso:

     Para que um objeto possa penetrar, do exterior de uma habitação fechada, sem abrir as portas, ou as janelas, é preciso fazê-lo passar através da madeira, ou do vidro, ou dos tijolos; mas para isto, é necessário que suceda uma destas duas coisas: que os átomos do objeto passem pelos intervalos interatômicos das paredes, isto é, que o objeto seja decomposto em matéria imponderável (operação denominada desmaterialização) antes de passar pelas paredes, e recomposto depois; ou, para aparecer ou desaparecer, sem passar pelas paredes, seria necessário que ele entrasse em uma quarta dimensão do espaço e depois tornasse a sair. Para seres que vivessem num espaço de apenas duas dimensões (seres bidimensionais), poderíamos fazer desaparecer um objeto retilíneo bidimensional situado dentro de um círculo, e depois fazê-lo reaparecer fora desse círculo, porque podemos erguê-lo no ar, fazê-lo desaparecer numa terceira dimensão, na altura ou profundidade (que esses seres bidimensionais não poderiam sequer imaginar).
     Esta hipótese (da quarta dimensão espacial) foi sustentada, primeiramente, pelo astrônomo e físico alemão Friedrich Zöllner, em seus experimentos com o médium Slade.
(Hipnotismo e Mediunidade, 1ª ed., FEB, sem data).


     Citarei agora um trecho bastante esclarecedor do Dr. Jayme Cerviño, no seu livro "Além do Inconsciente", ed. Feb, 2005:
      
     O aspecto mais enigmático dos fenômenos de transporte não é o trazimento de um objeto situado noutra parte da própria casa ou a muitas léguas, mas a penetração do mesmo em um recinto hermeticamente fechado, onde se reúnem médium e experimentadores. Zöllner, em seu livro, não só pretende ter demonstrado a "penetração da matéria através da matéria", como sugere uma quarta dimensão do espaço para explicar o fato. No cinema, o projetor, através de uma terceira dimensão, coloca e tira da tela bidimensional, todas as imagens que animam o filme. Assim, o objeto transportado penetraria, através da quarta dimensão espacial, no ambiente tridimensional representado pela sala fechada. Ernesto Bozzano, que escreveu uma extensa monografia para provar a existência dos fenômenos de transporte, considera fantástica a hipótese de Zöllner. Admite e argumenta, com certas observações parapsicológicas, que todos os corpos possuem uma "forma arquétipo" ou "duplo psíquico", que permanece após a desintegração e possibilita a reintegração instantânea da matéria. Quanto à prodigiosa soma de energia necessária a uma transformação dessa natureza, salienta que que "não se trata somente de energia física, mas, acima de tudo, de energia psíquica, liberada por um ato de vontade subconsciente ou extrínseca".

Obs. minhas:

1ª) Para não deixar margem a dúvidas, todos os fatos citados por Bozzano em sua documentada monografia sobre os "Fenômenos de Transporte" (ed. Calvário, 1972) foram obtidos em plena luz ou com luz suficiente.

2ª) O fato de, em alguns casos citados por Bozzano, os objetos transportados terem sido encontrados tépidos ou quentes, demonstra, segundo o filósofo italiano, que houve "comoção molecular" do objeto, o que abona a hipótese de uma provável desintegração e posterior reintegração material, segundo o modelo preexistente no "duplo" do objeto, e afasta a hipótese gratuita e insustentável de uma quarta dimensão espacial, hipótese ultrametafísica, indemonstrável e que permanecerá eternamente impensável, afirma o mestre italiano.

3ª) Não posso esconder a minha predileção pela teoria do "grande mestre da ciência da alma", como era chamado pelos espíritas ingleses, mesmo porque, como dizia Flammarion, "um fato incompreensível é sempre um fato, mas uma explicação incompreensível não é uma explicação".

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

102) Dr. Paul Gibier, o estudioso dos fenômenos bacteriológicos e psíquicos



     Vejamos os títulos do Dr. Paul Gibier e, a seguir uma breve síntese da atuação científica desse renomado médico e bacteriologista francês (1851-1900), discípulo de Louis Pasteur (1822-1895). Ele foi Diretor do Instituto Bacteriológico Pasteur de Nova York, Ex-interno dos Hospitais de Paris, Ex-Diretor do Laboratório de Patologia Comparada do Museu de História Natural de Paris, Membro da Academia de Medicina e Ciências de Nova York, Membro da Sociedade de Pesquisas Psíquicas de Londres, Cavaleiro da Legião de Honra.

Atuação científica: Graduou-se na Univerdidade de Paris (Sorbonne). Em seus estudos e pesquisas sobre o vírus da cólera na Espanha e no sul da França, recebeu uma medalha de ouro por parte do governo francês. À sua memória sobre a hidrofobia e seu tratamento, a Faculdade de Medicina de Paris outorgou a mais elevada recompensa que ela concede às teses que lhe são apresentadas. O governo francês o enviou para as Antilhas e a Flórida, em 1887, e 1888-1889, a fim de envidar estudos e pesquisas sobre a febre amarela. Pelo conjunto dos seus estudos, trabalhos e pesquisas sobre a cólera, a hidrofobia e a  febre amarela, o governo francés lhe concedeu o título de Cavaleiro da Legião de Honra. Em 1890, ele se estabeleceu como Diretor do Instituto Pasteur de Nova York, onde realizou várias pesquisas para a cura de pessoas mordidas por animais raivosos, através da inoculação de novas vacinas e soros. Nos EUA, foi editor da Therapeutic Review. Interessou-se bastante pelos fenômenos psíquicos, e, sobre esse assunto, escreveu três livros, baseados em seus próprios experimentos: "O Espiritismo Ou Faquirismo Ocidental" (1886), "Análise das Coisas" (1890), e "Materialização de Espíritos" (1900). Faleceu nesse mesmo ano, vítima de um acidente com o cavalo em que viajava. Foi um escritor prolífico, também na Medicina. A revista espírita norteamericana "The Banner of Light" classificou a sua "passagem" como uma grande perda para o Espiritismo científico. Em seu testamento, deixou 4.000 francos para o Instituto Pasteur de Nova York.
     
     Demos agora a palavra ao próprio Dr. Gibier:     
     "Nos exames reiterados que fiz dos fenômenos bacteriológicos, inspirei-me sempre nestas palavras de Voltaire: Quando se faz um experimento, o melhor partido a tomar é duvidar-se por muito tempo do que se viu e do que se fêz.     
     "Guiei-me igualmente pelos sábios conselhos dados por meu ilustre mestre Pasteur, em uma carta que me escreveu em 1887, quando eu partia para as Antilhas, a estudar a febre amarela:      
     
     Caro Dr. Gibier:     
     ... Conhecendo os novos métodos aplicados ao estudo das doenças contagiosas, podeis abordar as pesquisas difíceis que ides empreender.    
     Desconfiai principalmente de uma coisa: da precipitação no desejo de concluir. Sede de vós mesmo um adversário vigilante e tenaz. Cuidai sempre de surpreender-vos em falta...     
     Minhas felicitações e um cordial aperto de mão.    
     Louis Pasteur.


     "Somente depois que observei o fenômeno da escrita direta pelo menos quinhentas vezes, foi que me decidi publicar as minhas pesquisas. Demais, achava-me absolutamente fixado a respeito de uma quantidade de fatos da mesma natureza e muito mais extraordinários em aparência."     
     "Acrescentarei que durante cinco anos, antes de estar inscrito na Faculdade de Medicina, estudei tecnicamente a Mecânica, o que auxilia na descoberta de possíveis truques, e também me iniciei nos artifícios dos prestidigitadores. Devo, com efeito, confessar que já pratiquei um pouco a prestidigitação, a fim de melhor surpreender a fraude, caso isso fosse necessário."
                                                   (...)
     
     "Nesta terceira parte, reconhecemos que, além da Matéria e da Energia, existe a Inteligência no mundo, como no ser humano, a menos que se admita seja a inteligência unicamente um produto da matéria, isto é, seja a substância cerebral do homem a única matéria, no universo inteiro, capaz de produzir o que denominamos fenômenos inteligentes."     
     "Resta-me, agora que o raciocínio nos permitiu reconhecer o que denominei o terceiro princípio ou elemento, tanto no Macrocosmo como no homem; resta-me, digo, mostrar este terceiro princípio do homem, princípio livre e independente, aliás, o primeiro em importância. Talvez me seja permitido fazer entrever a persistência deste elemento, isto é, da inteligência consciente sobrevivendo à decomposição da matéria, à qual se achou momentaneamente unida, sob as aparências do corpo humano. Em outros termos: -- mostrar a possibilidade da existência abmaterial (fora da matéria) da inteligência, depois de sua existência comaterial (junto à matéria); tal é o fim a que me proponho."     
     "É uma empresa audaciosa, mas não temerária: hoje nada mais tenho que arriscar, porque depois de haver feito, no intuito de começar esta demonstração, um livro ("O Espiritismo ou Faquirismo Ocidental") que foi lançado no índex científico, tanto em Paris como em Roma, que raio posso eu temer, doravante, exceto os raios do céu?"     (Paul Gibier, "Análise das Coisas", 5ª ed., FEB, págs. 157, 158, 79 e 80).     

     Sem embargo dos seus estudos médicos e dos prêmios que recebeu do governo francês e da Sorbonne, por ter escrito o seu livro sobre o Espiritismo, em que defende a veracidade dos fatos e clama pelo estudo desses fenômenos pela ciência, o Dr. Gibier comprometeu o seu renome científico, e foi afastado das suas funções em sua pátria por puro preconceito científico dos seus colegas acadêmicos. Imediatamente, os Estados Unidos lhe ofereceram o cargo de Diretor do Instituto Bacteriológico Pasteur de Nova York (honra aos norteamericanos por esse gesto). Nas conclusões do seu ousado e último trabalho, publicado no ano do seu passamento, o sábio médico escreve num leve tom de  melancolia, mas não de amargura:      
     "Quando, por ter proclamado um fato, porque julgávamos saber que existia, fecharam-se diante de nós as portas do caminho que nos parecia destinado, e até os nossos mestres, colegas e amigos mais prezados deram ouvidos a baixas calúnias e afastaram-se de nós; quando o nosso donquichotismo nos leva ao exílio e nos faz passar estes 11 anos longe da pátria e de quanto ele encerra de caro para nós, temos por certo, repito-o, alguns direitos à impaciência. Mas, enfim, é chegado o momento em que temos a satisfação de ver a avalanche dos fatos engrossar todos os dias. O que ontem não passava de um foco quase imperceptível, vai irrompendo vigorosamente no campo da ciência."       
     ("Materialização de Espíritos", Editora Eco, pág. 96, trad. de Francisco Klors Werneck).     

     Para dar apenas uma pálida ideia dos fenômenos abordados nesse último livro do Dr. Gibier (informações completas devem ser lidas no original), citaremos o breve resumo que dele fêz o Prof. Charles Richet (Prêmio Nobel de Medicina), nas suas obras "A Grande Esperança" e "Tratado de Metapsíquica". Vejamos:      
     Meu amigo, o doutor Gibier, sábio eminente, Diretor do Instituto Pasteur de Nova York, operando com uma médium notável, a Sra. Salmon, fecha-a em uma gaiola de ferro, no seu próprio laboratório, com um cadeado do qual só ele tem a chave, e sobre o qual apõe vários selos firmados por ele. Vê então sair da gaiola uma mulher esbelta que parece viva. Ela parece 25 anos mais jovem que a Sra. Salmon, e permanece por dois minutos sobre o tablado. Depois, chegam a pequena Mandy, que tem apenas um metro de altura, um homem alto do qual Gibier pôde apertar a mão máscula, vigorosa e musculosa. Passado algum tempo, essa forma desmaterializou-se, desmoronou, precipitou-se, por assim dizer, no chão. Em certa ocasião, a própria médium surgiu do lado de fora, e caiu, quase desmaiada, no assoalho. Em todos esses casos, o cadeado e os selos foram encontrados intactos. Várias outras ectoplasmias, parciais ou totais, foram observadas durante os experimentos.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

101) Nascimento, luta pela vida e morte: o ciclo da evolução

     Essas reflexões são extraídas de uma grande obra mediúnica que, várias vezes, tenho citado neste blog:        
   
     "Lá, onde o mundo admira e venera o vencedor a qualquer preço, chamo para o meu lado o homem mais aflito e desventurado e lhe digo: amo-te, irmão, admiro-te, preeleito ser. Onde o mundo apenas respeita a força e despreza o fraco que sucumbido jaz, digo ao humilde e ao vencido: a tua dor é o que há de mais grandioso na Terra, é o trabalho mais intenso, a mais potente criação, pois que a dor faz o homem, lhe burila a alma, soergue-a e plasma, e a lança ao alto, para Deus. Qual dos grandes da Terra te pode igualar? Qual, dentre aqueles que triunfaram das forças terrenas, o que já realizou uma criação verdadeiramente eterna como a tua?
            Não maldigas da dor. Não lhe conheces as raízes distantes, não sabes qual a última onda que, impelida por uma infinita cadeia de ondas, constituiu o teu presente. Num universo tão complexo, no seio de um organismo de forças regido por uma lei tão sábia que nunca falha definitivamente, como podes crer que o teu destino esteja abandonado ao acaso,  e que o momentâneo desequilíbrio que te aflige, parecendo-te injustiça, não seja condição de um equilíbrio mais elevado e mais perfeito? Lembra-te de que, no organismo universal, são absurdos os vocábulos "acaso" e "injustiça". Não pode haver erro, imperfeição, senão como fase  de transição, senão como meio de criação. A alegria e o bem são a lei da vida, ainda que, para se realizarem plenamente, seja necessário se atravessem a dor e o mal... Não maldigais. Se a natureza -- tão econômica, mesmo na sua prodigalidade, tão equilibrada em seus esforços -- permite uma ruptura, qual o é biologicamente a morte, e um desfalecimento em tuas aspirações, qual o é a dor, isso, dentro da lógica do funcionamento universal, somente pode significar que tais fenômenos não exprimem nem perda, nem destruição, mas que guardam em si, ocultas, uma função criadora". (A Grande Síntese, cap.59, Teleologia dos Fenômenos Biológicos, edição da FEB, 1939).

     "Se a natureza guarda suprema indiferença diante da morte, é porque esta, substancialmente, nada destrói, tanto que, apesar das contínuas mortes, a vida prossegue triunfante. A morte nada destrói, nem do que é matéria, nem do que é espírito. A matéria, abandonada, desce de novo a um nível inferior e é apanhada em mais baixo ciclo de vida. O psiquismo retoma o dinamismo e os valores espirituais e ascende, imaterial e invisível, para equilibrar-se no nível que lhe é próprio, por peso específico. Do mesmo modo que com a luz e as cores pinta a natureza os mais maravilhosos quadros e depois, despreocupadamente, deixa se desvaneçam, porque sabe em seguida reconstruí-los de pronto, mais belos ainda, tão rica se sente de beleza, também com a química do plasma, com as forças da vida, com a sabedoria do psiquismo, a mesma natureza modela as mais maravilhosas formas e as deixa murchar e morrer, porque as sabe refazer rapidamente e as refará mais belas, numa infinita prodigalidade de gérmens".
     "A morte, com efeito, não lesa o princípio da vida, que permanece intacto, que antes continuamente rejuvenesce, em virtude dessa renovação contínua através da morte. Se a natureza não teme e não foge à morte, é porque esta é condição de vida e, da sua íntima economia, nada a morte arruina. Sabe a natureza que a substância é indestrutível, que nada nunca se pode perder como quantidade, nem como qualidade; sabe que tudo ressurge da morte: ressurge o corpo no ciclo das trocas orgânicas, e ressurge o espírito  no psiquismo diretor".
     "Nada na natureza se destrói e mesmo a morte, por lei universal, tem que restituir intacto o psiquismo cujos traços inutilmente procurais dali por diante naquele corpo inerte. Não importa que aos vossos sentidos e meios de percepção ele escape no imponderável. Havia um psiquismo animador que agora já não há. Todo o universo, por obediência constante à sua lei, clama que aquele psiquismo não pode ter sofrido  destruição. Vós o vedes desaparecer na morte e reaparecer no nascimento. Como então é possível que o ciclo não se feche, conforme acontece com relação a todas as coisas, reunindo de novo os dois extremos? Assim como o que não morre não pode ter nascido, também não pode morrer o que existia antes do nascimento. Aquilo que não nasceu com o corpo, com o corpo não pode morrer.  Se o espírito nascesse juntamente com o corpo, aí sim, teria que morrer com ele, a fim de fechar o ciclo, e isto nos conduziria ao mais desesperado materialismo". .........
     "Pensai bem: uma tão complexa unidade coletiva, qual a individualidade humana, é o mais alto produto da vida e resume os resultados do maior labor da evolução. Poderia esta, na sua economia íntima, permitir a dispersão dos seus maiores valores? E, depois, porque o testemunho dos sentidos, que vos iludem a respeito de tantas coisas, deveria ter mais força do que o vosso instinto, que vos diz: sou imortal; do que as religiões, do que os fenômenos mediúnicos, do que a lógica dos fatos, do que a voz concorde da humanidade inteira, e de todos os tempos, que vos dizem: sois imortais?". (A Grande Síntese, cap.74, o Ciclo da Vida e da Morte e a sua Evolução).

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

100) A mudança de paradigmas trazida pela Física Quântica

 
Amit Goswami
   

     Os parágrafos a seguir são extraídos do livro "O Universo Autoconsciente" (em inglês, "The Self-Aware Universe"), Editora Aleph Ltda., de autoria do físico indiano, naturalizado norteamericano, Amit Goswami, nascido em 1936, Doutor em Física Quântica, professor titular de física teórica da Universidade de Oregon, EUA, hoje aposentado. Refere ele:
     
     Os princípios da teoria quântica tornam possível abandonar as suposições injustificadas do realismo materialista. 

Suposição 1: Objetividade forte. A suposição básica feita pelo materialista é que há la fora um universo material objetivo, um universo onde as coisas acontecem, independentemente de nós. Essa suposição tem alguma validade operacional óbvia e frequentemente se presume que é necessária para praticar com seriedade a ciencia. Mas será ela realmente válida? A lição da Física Quântica é que um objeto quântico (um elétron, por exemplo), fora de uma medição científica, é um pacote de ondas de probabilidade que se espalham ao infinito, obedecendo à equação de Schrödinger. O ato de observá-lo faz com que entre em colapso instantaneamente o pacote quântico de ondas e se transforme numa partícula localizada. Além disso, nós é que escolhemos que aspecto -- ondas ou partículas -- objetos quânticos revelarão em uma dada situação. Sujeito e objeto estão inextricavelmente misturados. Se sujeito e objeto se entrelaçam dessa maneira, de que modo podemos manter a suposição da objetividade forte?
 
Suposição 2: Determinismo causal. Outra suposição do cientista clássico, que empresta credibilidade ao realismo materialista, diz que o mundo é fundamentalmente determinista -- que tudo que precisamos conhecer são as forças que atuam sobre cada objeto e as condições iniciais (a velocidade e a posição iniciais do objeto). O princípio da incerteza quântica, devido a Werner Heisenberg, afirma, contudo, que jamais poderemos determinar simultaneamente, com absoluta certeza, a velocidade e posição de um objeto quântico. Haverá sempre erro em nosso conhecimento das condições iniciais, e o determinismo estrito não prevalece. A própria ideia de causalidade torna-se mesmo suspeita. Uma vez que o comportamento de objetos quânticos é probabilístico, torna-se impossível uma descrição rigorosa de causa e efeito do comportamento de um objeto isolado. Em vez disso, temos uma causa estatística e um efeito estatístico quando falamos sobre um grande número de partículas.
 
Suposição 3: Localidade. A suposição da localidade -- que todas as interações entre objetos materiais são mediadas por meio de sinais locais que não podem ultrapassar a velocidade da luz, segundo a relatividade einsteiniana -- é fundamental para a ideia materialista de que eles existem basicamente independentes e separados uns dos outros. Se, contudo, ondas se espalham por enormes distâncias e, em seguida, instantaneamente desmoronam (colapsam) quando fazemos medições, então a influência da medição não viaja localmente. Por outro lado, experimentos realizados pelo cientista Alain Aspect comprovaram que elétrons correlacionados intercomunicam-se de modo instantâneo entre si. A localidade, portanto, é excluída em alguns fenômenos quânticos. Este contituiu outro golpe fatal no realismo materialista.
 
Suposição 4: Epifenomenalismo. O materialista sustenta que os fenômenos mentais subjetivos são apenas epifenômenos da matéria, isto é, são frutos do movimento de células cerebrais. Podem ser reduzidos apenas à questão do cérebro material. Se queremos compreender o comportamento de objetos quânticos, todavia, parece que precisamos introduzir a consciência -- nossa capacidade de escolher, através de uma experiência adequada, que tipo de comportamento desejamos obter -- ondas ou partículas -- de objetos quânticos.  Além do mais, parece absurdo que um epifenômeno da matéria possa afetá-la: se a consciência é um epifenômeno, de que modo pode ela provocar o colapso de uma onda espalhada de objeto quântico e transformá-la em uma partícula localizada quando realizamos uma medição quântica? 
 
Obs. minha: a propósito da noção de que o pensamento é apenas um epifenômeno da matéria cerebral, será que as moléculas de fósforo, carbono, oxigênio, hidrogênio, etc., do cérebro, com todas as suas propriedades físico-químicas, seriam capazes de explicar, por exemplo, os mais sublimes gestos de alguns seres humanos, como o amor ao próximo, a renúncia aos prazeres da vida, a doação de si mesmo, o sacrifício, a abnegação, o heroísmo, o martírio, por uma causa ou por um ideal? Ou, como dizia o astrônomo Flammarion, essas supremas atitudes de grandeza moral nada têm a ver com a Química, e denotam que o Espírito reside num mundo distinto do material, superior às vicissitudes e movimentos transitórios do mundo físico?

99) O que é ciência? Quais os seus objetivos? Opiniões de renomados cientistas e pensadores

A ciência é uma invenção do ser humano, evoluída através de uma seleção natural, no cortex cerebral, por uma razão muito simples: ela produz. Não é perfeita e pode ser mal utilizada. É somente uma ferramenta, mas até agora a melhor que temos, autocorretiva, progressiva, aplicável a tudo. Possui duas regras. Primeira: não existem verdades sagradas; todas as suposições devem ser examinadas criticamente; argumentos de autoridade não têm valor. Segunda: tudo que seja inconsistente com os fatos deve ser rejeitado ou revisto. Devemos compreender o Cosmos como ele é, e não confundir isso com como gostaríamos que fosse. (Carl Sagan)

Tanto a ciência é certa quando estabelece um fato, quanto é deploravelmente sujeita a erros, quando pretende estabelecer negações. (Charles Richet)

É preciso reafirmar que todas as descobertas científicas foram, em suas origens, perseguidas, ridicularizadas, escarnecidas, arrastadas às gemônias. (Charles Richet)

A ciência é obrigada, pela eterna lei de honra, a encarar de frente, e sem subterfúgios, qualquer fato novo que se lhe apresente à investigação. (Lord Kelvin)

As grandes ideias científicas não têm o costume de conquistar o mundo pela adesão dos seus adversários, que acabariam por se convencer, pouco a pouco, da sua veracidade, e por adotá-las. É sempre muito raro ver um Saulo tornar-se Paulo. O que acontece é que os adversários da ideia nova acabam por morrer e a geração seguinte é educada em outro momento, passando progressivamente a adotar a nova ideia. Quem possui a juventude, possui o futuro. (Max Planck)

O dever da ciência é procurar a verdade com plena independência de espírito, livre de toda ideia preconcebida. (René Descartes)

Fatos são fatos e, cedo ou tarde, abrirão caminho por si mesmos, malgrado a tudo e a todos. (Ernesto Bozzano)

Aquele que, fora das matemáticas puras, pronuncia a palavra impossível, revela imprudência. (François Arago)

Doravante, em termos de ciência, risquemos do nosso dicionário a palavra "impossível". (Sir Oliver Lodge)

Os cientistas, em relação a uma nova e revolucionária teoria, têm, em geral, quatro estágios de aceitação:
1º) Isso é um absurdo inútil;
2º) Isso é um ponto de vista interessante, mas errado;
3º) Isso é verdade, mas não tem importância;
4º) Eu sempre falei isso. (J. B. S. Haldane)

Se a ciência, com suas grandes descobertas, tem contribuído para esclarecer o homem, tem se mostrado sempre impotente para torná-lo melhor e mais feliz. (Léon Denis)

Omnia iam fiunt, fieri quae posse negabam. (Ovídio)
Trad.: Tudo já acontece, tudo que eu negava pudesse acontecer.

Obs.: as cinco citações que se seguem foram respigadas do livro "Diálogo com os Céticos" (pág. 17), do eminente biólogo e naturalista inglês Alfred Russel Wallace, em impecável tradução do Prof. Jáder dos Reis Sampaio.

Um ceticismo presunçoso, que rejeita fatos sem o exame de sua veracidade é, de alguma forma, mais nocivo que a credulidade incondicional. (Alexander von Humboldt)

Um bom experimento é mais valioso do que a ingenuidade de um cérebro como o de Newton. Fatos são mais úteis quando contradizem do que quando confirmam teorias aceitas. (Sir Humphry Davy)

Em qualquer área da ciência, o bom observador terá seus olhos, por assim dizer, abertos, de modo que possam ser imediatamente tomados de surpresa por qualquer evento que, de acordo com teorias aceitas, não deveria acontecer, pois estes são os fatos que servem como pistas para novas descobertas. (Sir John Herschel)

Antes que a própria experiência possa ser utilizada com proveito, há um passo preliminar a ser dado, e que depende totalmente de nós mesmos: é a limpeza absoluta da mente, dela extirpando todo e qualquer preconceito, e a determinação de aferrar-se ao resultado de um apelo direto aos fatos, em um primeiro momento, e à dedução lógica estrita a partir deles, posteriormente. (Sir John Herschel)

No que concerne à questão de milagres, eu posso apenas dizer que a palavra "impossível" não é, para a minha mente, aplicável em termos de ciência. Que as possibilidades da natureza são infinitas é um aforismo com o qual eu costumo importunar os meus amigos. (Thomas Huxley)